Vivia no cheiro da humidade da casa de banho no pós-banho.
Dos coentros acabados de colher.
Da almofada do meu pai.
Da pele da minha mãe.
Dos teatros em dia de concerto.
Da saída da praia ao fim da tarde e do leite fervido.
Dos livros com letra batida a máquina de escrever que estão fechados faz anos.
Do embate do Alentejo à saída da autoestrada num fim de tarde de primavera/verão/inverno/outono.
Da Lisboa fora de horas.
Da Sintra em dia de chuva.
Da Roma e das cores quentes.
Do soalho de madeira.
Da separação entre a casca e a laranja.
Dos chás da Fortnum and Mason.
Do cabelo cheio de praia.
Do café só no bolo de bolacha.
Do manjericão de braço dado ao parmesão.
Dos alpendres de tijoleira ao sol ou à chuva.
Do sabão azul e branco.

