Não é novo que se associe a música a momentos da nossa vida, sempre aconteceu invariavelmente, mais a uns do que a outros. Com o passar do tempo foi-nos permitido conjugar todo um leque de hipóteses musicais e congregá-lo naquilo que viria a ser a apoteose do amor juvenil dos anos 90, as mixtapes. A cassete que se gravava com um conjunto de canções meticulosamente selecionadas e se enviava quase em jeito de flecha cupidológica (ah, esta maravilha de escrever por conta própria e carregar nos neologismos). Não estou bem a par se hoje fazemos o mesmo com as playlists do Spotify, mas caso me acontecesse eu ia entender como um gesto de amor tão grande quanto aquele de quem abre a boca para me dizer: “Podes ir, eu levanto a mesa e arrumo a cozinha.”. É que na música cabe toda a intenção do mundo, da mais atroz à mais delicada, e se alguém expressou tudo aquilo que sabemos sentir e não sabemos dizer, porque não utilizar para nosso proveito esse feito. 

A minha memória é extraordinariamente complexa e gozona, e para além disso está pegada a dois sentidos de forma quase embaraçosa. Tenho uma memória olfativa e auditivo-seletiva, isto é, eu posso não me recordar de toda uma conversa de 2 horas que tive com alguém de importância extrema, mas consigo quase cheirar em tempo real todos os cheiros que por este meu nariz torcido passaram durante esse mesmo tempo. Assim como associo músicas a cada período da minha vida, não sendo estes tão alargados e extensos quanto possam pensar. Por vezes sei precisamente que música ia a dar no carro naquele dia em que estava a ir para o conservatório a um sábado de manhã quando tinha 12 anos. No entanto, essa será para sempre a mesma memória que não me permite contar à amiga aquela conversa comprometedora na maior alcoviteirice, mesmo que esta tenha tomado lugar nas 24 horas anteriores. 

Posto isto, vou para sempre lembrar-me que o desgosto do primeiro amor padece no Pale Blue Eyes na voz do Lou Reed. Que a minha primeira entrevista de emprego cheira ao fumo dos cigarros eletrónicos IQOS. Que o meu descolar de avião para vir para Londres foi assente na Space Oddity do Bowie. Que aquele último concerto enlatada no bom MusicBox cheira às chamuças da rua cor-de-rosa. Que a alegria da minha mãe a cozinhar para o meu aniversário reside na Tereza da Praia, a versão do Caetano, que a mãe me passou sem nunca mencionar o nome dele. Que no dia em que soube que ia ser tia o cheiro a açorda alentejana entupia a casa de uma ponta à outra. Que a primeira vez que vi a beleza real do Porto foi no cais de Gaia e a música de fundo era A Bela Portuguesa dos Diapasão. Que o sentimento adiado cheira a frio de fim de verão e à Guarda-me Esta Noite do Valter Lobo. Que na manhã em que o meu avô morreu cheirava a alcatrão molhado e a tristeza a correr pelas regueiras. Que naquela noite em que fui pé ante pé abrir a mala do carro na garagem e tive a certeza absoluta de que o pai natal não existia estava a passar um anúncio na televisão com a Home dos Edward Sharpe and the Magnetic Zeros. E a Quinta-Feira da Ascensão me faz sempre aterrar ao âmago onde pertenço independemente dos quilómetros que nos distanciem.

Há também aquelas músicas que já têm memórias sem estas terem acontecido e os cheiros que já se antecipam ao futuro. Que a Salty Eyes dos First Breath After Coma seja a música do meu casamento. E que cheire a bolo de mel, a receita da avó Maria Antónia, aos sábados lá em casa com os miúdos. E que a Somente o Necessário do Livro da Selva é, e será sempre, a música de dançar dentro de água na praia. 

E que a Jealous Guy seja a música que as silhuetas dançam agarradas quando ninguém está a ver. E que o cheiro dos livros que agora são novos evolua para o cheiro dos livros gastos, usados, intensos e cheios de gente com bandas sonoras.

da Teresa.

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