O rame-rame.

Não estou certa que nos devamos esforçar assim tanto para ter uma vida que não nos completa.

Ontem no regresso a casa vinha a conduzir embrulhada em pensamentos, com a avenida Marechal Gomes da Costa só para mim, e num embalo de pensares que não sei se solidarizou o radar de 50. Estava a pensar que a espuma do dia-a-dia (e se eu não gosto desta expressão) nos empurra contra tudo o que não queremos. É uma espuma densa, e rápida. E quando olhamos para a sujeira que deixou já passaram 10 anos.

Desgasta-me o rame-rame. Os vizinhos do primeiro andar que sem empatia fazem sapateado a qualquer hora. A falta de isolamento desta construção citadina. O apitar das máquinas de construção do prédio nova iorquino que estão a construir há 3 anos do outro lado da rua. As rodinhas dos trolleys a caminho do Airbnb do prédio. Isto ser um prédio. A porra da serra elétrica que se ouve a milhas. A falta do meu conforto que não investi nesta casa porque, todos sabemos que só aqui estou emprestada, ainda que por vezes 7 dias na semana. O estender a roupa dentro de casa. Os cafés que tenho de beber na cidade. Os horários que a cidade constrói e aos quais me sujeito. A falta de tempo para parar. A ansiedade e as taquicardias. 

Tenho muitos dias onde faço uma viagem mental até aos meus tempos de escola. E penso no que mudou, sobre o que é que me construí, se mais do que estar onde queria estar, se sou quem eu queria ser. O ano passado tomei uma decisão que aos olhos de todos foi inconsequente. Inscrevi-me num doutoramento. E entrei. Neste momento cheguei ao fim do primeiro semestre. E já tenho algumas conclusões. A primeira eu diria que é: as minhas conquistas partem sempre da minha ingenuidade. Não posso dizer que não fui avisada. Fui, várias vezes, por um irmão que roçou o desvario durante 5 anos de percurso. Só que a minha ingenuidade geralmente vem de braço dado com a teimosia. E se procurarmos uma justificação astral é touro com lua em touro com vénus em touro com mil casas em touro, que nem gosto de touradas. Não está a ser fácil este caminho. E não está por várias razões. Não está porque a minha família sempre me ensinou a ser a melhor em tudo. Se não é para seres a melhor não faças. Se não é para seres a melhor não vás. E se hoje em dia essa lógica não existe em quem me rodeia, existe em mim. Não aguento ser às metades. Até acho que nada me irrita mais do que ser às metades. Talvez falta de educação me irrite um bocadinho mais, mas voltemos. 

Eu imagino que fazer uma licenciatura enquanto se trabalha seja difícil. É certamente, tem uma grande carga horária, que regra geral é inversamente proporcional ao sentido de responsabilidade da grande maioria dos alunos de licenciatura. Não tive de fazê-lo. Eu sei que fazer um mestrado enquanto se trabalha é difícil. Foram dias complexos, falta de horas de sono, malabarismos variadíssimos, o tema do curso em si correspondia ao meu trabalho diário, e lá se fez. Mas maldita memória de peixe, que apagou o transtorno e sacrifício, e atirei-me da prancha dos 10 metros.

Eu tenho muita sede de saber mais, para poder ensinar mais, e contribuir mais. E sabendo que não há ciências nobres e ciências pobres, devo dizer-vos que estou a estudar algo que me traz quilos de orgulho. Se para uns estudos de género levanta bandeiras às cores e glitters e alertas, para os que discernem os estudos de género catapultam as mulheres, os seus direitos, e não me parece que não se reconheça a urgência nesse tema. Eu investigo para que no futuro possa ter propriedade para abordar a relação entre o género e a demografia do país, das migrações, do direito internacional, as políticas públicas da igualdade, o género no trabalho, e na educação e formação, a violência alicerçada no género, a memória e os ativismos das mulheres, o ativismo através da arte. Eu investigo nem que seja para ir relembrar mulheres que foram apagadas do sistema, e homens que diariamente tentam existir na masculinidade que lhes dizem ser a única e a certa.

Com isto, importa queixar-me da solitude que vem associada a este salto de cabeça. Eu sei que nos olhos de tantos é capricho. Não estou a descobrir a cura para o cancro. Só não reconhecem que é um cancro social. Não espero um aplauso. Uma ovação. O meu trabalho já é barulhento, e eu prefiro silêncio. Mas espero sim consideração, algum interesse também ajudaria a levar a carroça para a frente. Queria tanto usufruir do que estou a construir. Queria acordar numa só casa, ter o desaforo de ter tudo num só lugar, uma secretária a lascar de velha com puxador de latão, para onde iria meter o meu estudo em dia. Ouvem-se sempre pássaros no jardim. Mesmo quando chove. 

Preciso tanto de respirar e parar de me pesar nos ossos todas as vidas que eu escolho não viver. No final do dia ando a correr atrás do quê?

Sinto que estive este tempo todo a queixar-me do privilégio. Tenho casa, tenho trabalho, posso estudar, mas e respirar devagarinho, e ver-me como eu sou, posso? 

da Teresa.

Next

exercício introspectivo

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Publicar comentário