Estou em Londres, e quis tanto escrever sobre estar em Londres. Quis tanto falar sobre o que vi até cá chegar e o que vejo agora que cá estou. E frustrei-me tanto por esta vontade de escrever que não aparecia, e que acabou por ser enfiada goela abaixo tal como se dá os comprimidos aos cães. Mas cá estou eu, a escrever, em Londres.

Os dias têm sido curtos para a longevidade que têm quando esta não é acompanhada de produtividade. Acordo, já estou a pensar em fazer a cama. Como, já estou a pensar em lavar a loiça. Sento-me, já estou a pensar em levantar-me. Deito-me, já estou a pensar em acordar. Se isto não se trata da inquietude da flor da minha condição de jovem adulta, então não sei se quero saber o que é. A minha mãe diz que fui assim a vida toda, a pensar no que vem depois. Mas prometo que me estou a concentrar no agora, para amenizar o saudosismo e tranquilizar a Teresa do futuro. Cruzes credo que a cidade é enorme e eu estou retraída de todas as sensações primárias que lhe posso absorver. Que aborrecimento. Mas o tempo corre depressa, e mais uns acordares e deitares e estou pronta para ir correr todas as exposições grátis dos museus desta metrópole. 

Tenho tentado tirar partido desta quarentena a olhar pela janela e aprender com quem passa. E começo a gostar da leviandade com que enfrentam a chuva, com um passo demorado, de quem sabe que não é mais senão chuva ou, quem sabe, até uma possível constipação para os não-habitués. Ando desorientada com o isolamento sonoro deste país. Quem lhes disse que casas de papel rendiam fora da Netflix? Vai daí e dormir de tampões nos ouvidos é a nova moda. Será que o trânsito torna toda a experiência do isolamento menos dolorosa? Se calhar sou só eu numa vibe pré-socrática a querer encontrar o sentido da vida.

Esta semana fui aos correios. E não fui pagar nada. Quer dizer, acabei por pagar, mas não envolveu contas da água ou restantes encargos. Fui enviar uma carta aos meus pais. Em que ano é que alguém decidiu que a magia de enviar uma carta era substituível por qualquer outra forma de comunicação escrita ou teclada? Quem é que achou que era justo desabituarmo-nos dessa bonita forma de transmitir sentidos? Há quanto tempo não escrevem uma carta ou postal a alguém que gostam? Já alguma vez escreveram? Começo a aperceber-me que não tem a ver com ser do vintage, mas sim do vivido. Tal como quem prefere ouvir um vinil em vez de meter a mesma música a tocar no Spotify. As cartas podem ser um sms ou um email, mas falta-lhes o ritual. Falta a ânsia da delimitação, o medo do erro sair riscado, o vincar da carta, o endereçar para a morada de quem gostamos, o lamber o selo que em tempos de covid tomou uma alternativa meio nojenta, até ir ao marco do correio e a atirar lá para dentro, na esperança que chegue ao destino sem alterações, como se os senhores do além nos corrigissem, sabendo que não há volta a dar. E há também toda a surpresa de quem a recebe, e descobre o remetente, e a abre de forma lenta e demorada, e passa os dedos pelas linhas escritas até absorver uma mensagem ou uma memória, qual braille. E a guarda, com amor, porque todas as cartas têm amor, nem que seja só na forma como são concebidas. 

Ontem pensei que se isto fosse uma comédia romântica dos anos 90 e eu pudesse pedir um desejo inconscientemente, e acordar no dia seguinte, e este estar realizado, pedia para ter sempre a minha família por perto, para onde quer que eu fosse, eles também iam. E vão. E que isso não alterasse em nada a vida que levam. Cada vez mais reconheço que sou alicerçada nos meus, e que alguma coisa de muito bem fizeram para eu querer tê-los comigo para sempre. Tenho a sensação que este sentimento vai aguçar com o passar dos anos. 

Mas lá está, eu não vivo numa comédia romântica dos anos 90, apesar de por vezes tudo indicar que sim, e terei sempre que ir para poder voltar. Mas teremos sempre correios e cartas. Mais que não seja, rituais de amor. 

Voltei a isto, de escrever. 

Pressionada, mas com a mesma vontade e tudo por dizer.

da Teresa.

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E se pudesses viver num cheiro para sempre?