Não vale a pena tentar ser fit se não gosto de abacate e o cheiro a leite fervido é amor.

A minha rua não tem os bonitos jacarandás, e o meu carro não é um Cinquecento amarelo. No entanto todos os dias acordo num quarto branco, com o Dylan dos 60’s a presenciá-lo.   

Não procures em mim todo o conhecimento cinematográfico que eu não possuo, quando eu nem sei o nome do meu ator preferido. Mas abre as minhas gavetas e a agulha do gira-discos pode passar de Chet Baker a Lauryn Hill, e não precisas de pedir muito para que Velvet Underground se junte à festa.

Não falo baleiês mas tenho a memória da Dory. Não me vou lembrar da data em que aqueles que gosto nasceram, nem vou saber recontar aquela noite que terminou às quatro da manhã no Largo de Santo Estêvão, muito menos vou manter em mente as piadas que me levaram ao choro. Mas isso não me impede de passar na pastelaria antes de ir para casa e comprar ovos moles em jeito de aconchego de alma e de “trouxe-te isto para sorrires um bocadinho”, assim como também não me ata os braços para que eu não ultrapasse o limite de tempo aceitável para um abraço – se é que isso existe – e muito menos me corta a língua para que eu não arroje pela boca a cada três segundos e meio as saudades que sinto de tudo. 

Tudo.

Não vejo séries se isso implicar tirar horas de sono da minha noite. Qual descaramento dificultar o namoro dos cabelos dourados com o travesseiro branco. 

Vivo na minha anacronia, onde o chocolate quente não é sazonal, e entre analepses e prolepses lá vou suspirando para mim mesma: “aii que Amélia que és…”.

Jamais irei arremessar qualquer tentativa de camuflar o meu sotaque alentejano porque de pronomes possessivos eu conheço o mê, tê e sê. 

Como incertezas e riscos ao pequeno almoço e não os aqueço no micro-ondas para que não apanhem radiações.

Facilmente tenho os olhos marejados – que dificilmente captarás, culpa essa da mecha de cabelo que não se dá bem com o restante e não quer, por isso, partilhar o mesmo espaço – não de tristeza ou irritação, mas da explosão bonita que uma frase provocou em mim ou talvez porque viajei até um momento que não sei passar para palavras. 

Sou péssima a trocar ideias e quando uso a minha palavra no silêncio sinto-me inquilina de ambos os hemisférios. Ao pé-coxinho.  

Afeiçoo-me à arte e é fácil encontrares-me com cara de perdida a contemplar o que para mim integra esse campo. Mas não me expliquem. Eu não dou a mínima para a conceptualização acerca da ligação entre a orelha perdida do Van Gogh e a Amendoeira em Flor, ou se o primeiro verso da Autografia do Mario Cesariny usa a forma verbal no presente do indicativa com o intuito de remeter para uma realidade assumida ou matizada de surrealidade. Eu não quero saber.

Não me expliquem o que não quer ser explicado.

Não vivo numa casa do século XIX, apalaçada mas acrática , com tectos em abóbodas, a porta de entrada verde sintra – a minha cor preferida, que só alguns conhecem – gradeada com o dobro da minha altura, e umas escadas de madeira que rangem quando chegamos a casa fora de horas sem querer acordar quem dorme. Contudo, um dia o inicio desta frase perderá a negação. 

Durmo com um caderno à distância de um braço da cama que me possibilita a passar para o papel os clarões hemorrágicos de palavras que me assaltam os sonhos. E muitas vezes já que estou acordada fico ali a divagar por pensamentos darwinianos e acerca da frivolidade das pessoas, ou então só a pensar no resto do bolo de noz com doce de ovos que está no frigorifico. 

Entendo os preconceitos como se de brotoeja se tratasse. E não há pomada para comichões que os aconchegue.

Sou de levas e de vagas, e de gozo e de prosa. 

Sou de campos e de céus, e dos detalhes que não têm lugares nas conversas.

Sou do cheiro do frio, do desequilíbrio e das luzes apagadas. 

Sou da segunda sem mau humor, dos bons dias e de me esquecer de desviar o olhar quando me olham de volta. 

Presto demasiada atenção aos timbres e não sou do vintage, sou do vivido. 

07-11

Sou péssima a trocar ideias e quando uso a minha palavra no silêncio sinto-me inquilina de ambos os hemisférios. Ao pé-coxinho.