Estamos em Setembro de 2024, e tenho pensado muito sobre a vida que não tenho.
Isto pode ser visto como um exercício introspectivo, ou então como uma raposada auto-sabotadora. Se há uns tempos pré-terapia-bem-dita-sejas eu não conseguia pensar nesses cenários com calma e visão analítica, neste momento eu até estou capacitada nesse sentido.
Também tenho feito contas à vida, muita matemática de calendário, que me coloca em momentos exatos. Em 2008, estava no 4º ano, e lembro-me de olhar para o canto superior esquerdo daquela ardósia gigante, onde a professora Maria Amélia escreveu bla bla de bla bla de 2008. E eu pensei: “chiça, será que algum dia ali vai estar um 2030?” Teresinha, estás por lá a chegar, meu bem. Em 2012, ia ao meu primeiro festival de música, levei umas vans verdes de pano roto e cansado, e cheirei de perto o suor do mosh pit de Limp Bizkit.
Em 2014, dizia ao meu irmão que não gostava de Beatles, e que não entendia o que é que as pessoas viam na música deles, tão aborrecida. Engulo todas as palavras e, em Dezembro, vou estar a chorar a alma enquanto o Macca canta a Blackbird para mim (naturalmente que é para mim, não percam tempo a convencer-me do contrário, como se lá estivessem mais 30 000 pessoas).
Em 2016, adormeci a ver Ivete Sangalo porque achámos uma ideia vencedora ir para o Rock in Rio no dia seguinte ao meu baile de finalista, e o meu corpo não sabia se estava neste planeta ou em namek. Também no mesmo ano entrei na faculdade, e ganhei uma certeza: eu gosto muito da minha terra, da minha casa, e da minha família. Em 2017, partiram-me o coração ao pontapé. E fui tentar curá-lo para Roma enquanto aprendia italiano. Fica a dica: não vão para a cidade do amor eterno tentar curar um coração partido.
Em Setembro de 2020, estávamos a entrar numa segunda vaga da pandemia, e eu estava a embarcar num avião em direção a Londres, para começar o meu mestrado, num autêntico estado fantasioso. Foram poucos meses, mas enquanto foram sonhei acordada pelo que podia. Tinha um quarto maravilhoso numa casa partilhada em Notting Hill, um jardim privado cheio de esquilos, e com vista de final de tarde para cozinhas com luz quente e famílias compostas. Todos os sábados ia ao mercado de Portobello e esperava que as estações do ano mudassem, qual Hugh Grant. Passava pela bodega espanhola e comprava presunto e nestum com mel, para aquecer o coração. Até que um dia a televisão estava ligada e o Boris mandou todos trancarem-se em casa. Não ia ficar a viver o sonho pela janela. Voltei para casa. E seguiram-se mais uns quantos meses de caos.
Em 2024, meti-me numa alhada de crescidos. Começo um doutoramento daqui a um mês. Têm-me perguntado o porquê. Tenho respondido que preciso saber mais, e preciso entender mais, e ensinar mais. Achei que nunca iria chegar a este lugar onde estou, porque as inseguranças que albergamos não nos permitem ver com a clareza que temos. No dia em que me candidatei ao mestrado em Londres tinha a certeza que não entraria, porque há tantas pessoas melhores e mais dedicadas.
Já passou, e eu fui essa pessoa melhor e dedicada.
Vejo-me muitas vezes em situações que ainda não vivi. Todos os dias em bocadinhos diferentes do mesmo dia. Quando chego a casa do trabalho e vejo uma mesa posta. Sempre que me vou deitar e coloco só uma almofada na cama. Quando cozinho para mim, e o tupperwear vai continuar com a mesma quantidade de comida quando eu o voltar a abrir. Todas as vezes que compro champôs quando ainda tinha, e vou continuar a ter frascos de restos de champô porque ninguém os vai terminar senão eu. Acho que a sorte de nunca termos vivido algo é não sentirmos o vazio, porque não sabemos o espaço que ocupa.
No outro dia fui jantar fora com uns amigos. É sabido que tenho uma bateria social mais reduzida do que a média das pessoas. Requer um esforço adicional preparar-me para um jantar ainda que seja com pessoas que gosto. E esse jantar foi um suspiro de satisfação. Rimos muito, comemos bem, partilhámos angustias e regozijos. E eu sei que se a vida for loiça suja, ao menos teremos risos em torno dela.




da Teresa.
