Ontem choveu muito depois de tantos dias de veraneio, apesar de ainda não o ser. As pessoas não levam o saber popular a sério – talvez levem mais a sério o aquecimento global e até tenham razão – mas abril águas mil. As feições notam-se logo diferentes quando o assunto é água a cair do céu depois de uns dias de sol. Almocei num tasco, tão bem acompanhada que podia estar a comer pão com pão debaixo da ponte, e as atenções desviaram-se para a janelinha lisboeta recortada quando caiu um diluvio sobre a Praça da Alegria, que parecia tornar-se triste em menos de um minuto. 

De há uns anos para cá gosto cada vez mais de sol, e de ir a banhos em dias de sol, mas não posso negar que há pouca coisa que eu goste tanto como um dia chuvoso, que apura o tempero da natureza. Até tenho alguma dificuldade em perceber esse malquerer à chuva. A chuva não esconde nada, e tem tanto de romântica quanto de revolucionária, dois bonitos conceitos quando coexistem. Acham mesmo que o Tom Waits escreveu o Closing Time num dia radiante de sol? A chuva – e a vida no geral – nunca mais foi a mesma depois da Holly beijar o Paul no Breakfast at Tiffany’s logo após encontrar o gato entre caixotes. Ou depois da Mary Jane baixar a máscara do Peter Parker. Há pouca coisa tão boa quanto um braço dado debaixo do mesmo guarda-chuva. 

Acho que o romantismo que se associa à chuva não será só um processo metafisico, mas qualquer coisa mais profunda, sobre a qual não pensei o suficiente. Mas há quem o tenha pensado. O Aristóteles escreveu na obra Physica que a chuva não se produz em vista de algo, nem porque é melhor, mas sim porque é preciso resfriar aquilo que foi levado para cima, e é preciso que aquilo que se resfriou, sob a forma de água, regresse à terra. Se pensarmos que este processo de evaporação para os céus é acompanhado de dores, pesares, maus amores, e pulsares de peito, não me espanta que a pluviometria esteja proporcional a uma quantidade de sentires tão distintos e intensos. 

Estava a almoçar, olhei para a janela, e vi que lhes chovia o choro em cima. Resta saber quem são os impermeáveis, e quem se deixa molhar. 

Golconda de René Magritte
Rain in Belle-Ile de Claude Monet

da Teresa.

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No fim das contas

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